sexta-feira, 3 de setembro de 2010

POEMICO

Ora, bolas
Horas loucas
Nada direi
Que não saiba
De outras bocas

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O PIOR DOS MUNDOS


"Operação Aloprados II": desta vez só faltou a montanha de dinheiro.

Articulista de “Veja”, Roberto Pompeu de Toledo, escreveu, certa vez, dirigindo-se à então presidenciável Heloísa Helena (PSOL), que o mundo que ela imaginava, ele não queria viver.

Pois parece que o mundo imaginado pelo PT tem o mesmo sabor. Em meio ao escândalo da quebra de sigilo fiscal de tucanos (cinco até agora), os órgãos do governo federal, evidentemente aparelhados, relutam em levar adiante as investigações e esperam que o pleito de 3 de outubro passe e a vitória de Dilma Rousseff se confirme para tomar qualquer providência.

A diferença entre o episódio dos Aloprados I, de 2006, e os Aloprados II (a missão, em 2010) é a ausência da montanha de dinheiro, cuja origem, observe-se, nunca foi revelada.

O caso mais fresco, mas não mais recente, foi o da quebra de sigilo de Verônica Serra, filha do presidenciável José Serra (PSDB) e quinta tucana a ver sua declaração do imposto de renda invadida sem motivo justificado.

Desta vez, falsificou-se a assinatura de Verônica, o carimbo do cartório, o reconhecimento da firma e até o recibo de pagamento. A única assinatura verdadeira era a do técnico em contabilidade Antônio Carlos Atella Ferreira, que foi quem apresentou a procuração falsa para conseguir na receita os dados sigilos da filha de Serra. Impressionante foi a destreza da funcionária da receita federal que, no mesmo dia, emitiu as declarações fiscais de Verônica referentes ao exercício de 2007 a 2009.

Em declaração, Ferreira afirmou ter recebido a encomenda de um homem que estaria “interessado em prejudicar a campanha de Serra”.

Dilma Rousseff quis sair pela tangente ao afirmar que, em setembro de 2009, quando Ferreira bateu à porta da Receita, ela ainda não era candidata. Argumento frágil. Serra também não era. Mas a pré-campanha da petista já estava a todo vapor, inclusive com a contratação de Marcelo Branco, o riponga que caiu do caminhão de mudanças de Woodstock e os demais aloprados, prontos para produzir dossiês em escala industrial. A casa luxuosa, em Brasília, onde funcionaria o comitê de campanha de Dilma, também já havia sido alugada.

O que ocorreu, então, foi um crime de Estado. O mesmo, aliás, que levou o governo Lula a mandar, através da aparelhagem de órgãos públicos, quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, que havia acusado o então todo-poderoso ministro Antonio Palocci (Fazenda) a reunir lobistas e mulheres de vida airada em uma residência de luxo no Lago Sul de Brasília, conhecida como “República de Ribeirão”.

A Folha de S. Paulo levantou a ficha policial de Ferreira, o técnico de contabilidade que recusa-se a declarar quem seria o seu cliente, e descobriu que ele tem “perfil” estelionatário. Ferreira, 62, já foi condenado duas vezes, em 1975, por lesões corporais e estupro de menor. Além disso, possui quatro CPFs, um deles em Cornélio Procópio, no Paraná; dois em cidades de São Paulo (São Sebastião e Santo André) e outro em Porto Velho (Rondônia).

O PSDB pediu a demissão do secretário-geral da Receita Federal, Otacílio Teixeira, por evidente tentativa de acobertar o episódio até que as eleições estejam definidas.
Lula, por sua vez, sempre no velho estilo “eles fazem, eu faço”, disse que a tentativa de relacionar Dilma Rousseff com o caso seria “uma leviandade”. Ora, se a produção dos dossiês partia do comitê de campanha de Dilma, a responsabilidade, por óbvio, é da candidata. Mas o aparelhamento dos órgãos do Estado, assim como os do Congresso Nacional, não permite qualquer brecha na tentativa de deslindar o caso.

O colunista Janio de Freitas (também da Folha) classificou o caso como o mais grave depois da Era Collor. Mas é pouco.


Dilma satirizada por humorista do "Pânico na TV": "eles fazem, nós fazemos". Ora, o PT não é diferente?

Dilma Rousseff, em entrevista ao Jornal da Globo, insinuou que durante o governo FHC houve também a quebra de sigilo de congressistas na “Operação Reeleição. De novo o mesmo discurso: “eles fazem, eu faço”. Ora, o PT foi eleito, em 2002, justamente para não “fazer” a mesma coisa. Fez. E pior. A declaração de Lula, em Paris, ainda ecoa nos ouvidos de muitos eleitores após o episódio do mensalão e da criação do neologismo dinheiro não-contabilizado, né não?

Para concluir, um episódio de dar engulhos: a defesa intolerante e xiita de jornalistas, dantes levados a sério, apressando-se a afirmar que tudo não passa de uma nuvem de fumaça ou que a imprensa estaria cuidando das denúncias por falta de assunto. Luis Nassif (bandolim, bandolim) e Paulo Henrique Amorim (apresentador e dublê de humorista) são exemplos dessa pequeneza servil. Ambos com mais de R$ 1 milhão de razões para defender o governo Lula.

Quanto aos escribas da paróquia, o que dizer? Trata-se de gente que nunca pisou em redações, que rasteja nos meios acadêmicos ou que regurgita nas assessorias de imprensa, sempre à sombra do PT. Estes são canalhas menores, dispostos a tudo para garantir a boquita e temerosos que ela lhes escape.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ZSA ZSA GABOR: ELA SEMPRE ADOROU CASAR (E TAMBÉM DESCASAR)


A atriz Zsa Zsa Gabor fazendo o que ela sempre mais gostou: casar.

No twitter, o perfil @realmorte faz brincadeira com a notícia de que a atriz Zsa Zsa Gabor voltou ao hospital após ser encontrada inconsciente: “Já Já Gabor”, diz o avatar. Apesar da insinuação macabra (e desculpável porque trata-se da Morte), é assim mesmo, com trocadilho e tudo, que pronuncia-se o nome da atriz – e não Tza Tza como pensavam alguns.

Jornais dão conta de que Zsa Zsa – cujo nome verdadeiro é Gábor Sári – teria nascido em Budapeste, na Hungria, em 6 de fevereiro de 1917. A atriz nunca confirmou. A data mais provável é 1919, portanto, ela teria 91 e não 93 anos como se proclama.
Nonagenária, de qualquer forma, Zsa Zsa registra um histórico de nove casamentos ao longo da vida e um sem número de relacionamentos vaporosos e às vezes tumultuados com gente da melhor e da menor estirpe, mas sempre ricos.

Quando Zsa Zsa Gabor desembarcou nos Estados Unidos, após a Segunda Guerra, já tinha pelo menos um casamento no currículo. Sua mãe, Jolie Gabor, que tinha mais duas filhas (Magda e Eva) via em Zsa Zsa um caminho para a fortuna. Tanto é que, em 1931, ofereceu a filha, então com doze anos, ao Príncipe de Gales que se tornaria o Duque de Windsor e abdicaria do trono ao se casar com a plebeia Wallis Simpson. Nada, no entanto, abalou a resoluta Jolie.

Tão logo tiraram a poeira da viagem, ela tratou de jogar Zsa Zsa nos braços do milionário hoteleiro texano Conrad Hilton, que ficou tão impressionado com a húngara que tratou de presenteá-la com o Plaza de Nova York e, fricote daqui fricote dali, com outros hotéis. Paris Hilton vem dessa linhagem.

Claro que Zsa Zsa, apesar da tenra idade – calculemos 26 anos à época – já tinha certa experiência na cama. E obviamente que não fora conquistada com o casamento. Casada em 1936 com um político turco, depois de sagrar-se Miss Hungria, este foi inabidiloso ao consumar o matrimônio. Zsa Zsa separou-se e só foi conhecer o que era sexo de verdade com o ditador turco Kemal Atatürk. Não sem antes sofrer a bolinação e o assédio do dramaturgo inglês Bernard Shaw.

Depois de separar-se do milionário, então com 61 anos, ela ainda teve um affair com o filho dele – Nicky, mas este não era um décimo do pai, conta ela em sua autobiografia “One lifetime is not enough” (Uma vida só não basta), em parceria com a jornalista Wendy Leigh, publicado em 1992.

Foi então que Zsa Zsa Gabor conheceu George Sanders, que definiu como o grande amor de sua vida. Mas ele não pensava assim, ainda mais porque era sabidamente bissexual. A título de curiosidade, Sanders interpretou em “A Malvada” (All About Eve), o crítico teatral Addison DeWitt. Pois foi no personagem que Paulo Francis se inspirou para criar a figura que levou para a TV Globo em comentários impagáveis.


Zsa Zsa em cena de Moulin Rouge (1952), de John Huston, que lhe custaria o casamento com George Sanders.

O que pôs abaixo o casamento de Zsa Zsa Gabor com Sanders não foram as aventuras fortuitas da mulher, mas o cinema. Sanders ficou fulo quando soube que ela faria um pequeno papel em Moulin Rouge (1952), de John Huston, cujo pintor Toulouse Lautrec era interpretado por José Ferrer. Zsa Zsa não apenas interpretava, mas cantava a canção-título, o que era demais para o ego inflado de Sanders.

Zsa Zsa então cairia nos braços de playboy dominicano Porfírio Rubirosa e, com ele, daria fama ao seu amor por diamantes, brilhantes e outras jóias de menor escalão, mas não de menor valor.

Claro que não casaria com Rubi, mas colecionaria outros maridos. Um deles, o gênio da eletrônica, Jack Ryan, ficou conhecido por criar o protótipo do radio-transístor e, acredite, a boneca Barbie.

Depois de vários matrimônios, sempre com milionários, Zsa Zsa aceitou o pedido do alemão e príncipe sem trono, Frédéric von Anhalt, e com ele permanece casada há 24 anos. Contudo nunca mudou o seu conceito do que significa amor e dinheiro. Dinheiro não traz felicidade (mas dá para sofrer em Paris), o que não quer dizer que não compre amor verdadeiro, como sentenciou Nelson Rodrigues. Zsa Zsa acredita piamente nisso. Principalmente quando observa, aos 91 ou 93 anos (não importa), sua coleção extravagante de jóias e diamantes.

FRASES DE ZSA ZSA GABOR

“Os maridos são como o fogo: extinguem-se, se não forem atiçados.”

“Divorciar-se apenas porque você já não ama o seu marido é quase tão idiota quanto se ter casado com ele apenas porque o amava.”

“Sempre disse que uma mulher só se deve casar por amor – e continuar a casar-se até o encontrar.”

“Sou uma ótima dona de casa: sempre que me divorcio, eu fico com a casa.”

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A MORTE DO HOMEM DA BENGALA



O chefe do mensalão, José Dirceu, é agredido por Yves Hublet, em novembro de 2005, ao deixar a Câmara dos Deputados no auge do escândalo do mensalão: "Fristão! Fristão!"

Só um mês depois, a imprensa paranaense noticiou, ainda que por meio de blogs, a morte do escritor curitibano Yves Hublet, 72 anos. Radicado em Brasília, Hublet foi o autor das três bengaladas aplicadas no ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), em novembro de 2005, no auge do escândalo do mensalão.

Hublet faleceu em 26 de julho deste ano em circunstâncias que, segundo o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) teriam sido misteriosas. De acordo com o amigo e editor Airo Zamoner, dono da editora Protexto, que publicava os livros de Hublet, o escritor enfrentou diversos problemas no país e acabou mudando-se para Bélgica, já que possuía dupla cidadania.

Em maio, ele retornou a Curitiba (PR) a fim de tratar da edição de um novo livro e resolver questões matrimoniais – um novo casamento o aguardava na Europa.

Zamoner diz que ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Brasília, onde faria a conexão para a capital paranaense, Hublet foi preso e ficou incomunicável por pelo menos cinco dias (os dados não são confirmados). “É uma denúncia séria”, disse o senador Alvaro Dias. “Ele teve de deixar o Brasil e foi preso ao desembarcar em Brasília. Não sei em que condições ele foi preso, mas ele ficou doente na prisão e foi hospitalizado sob escolta.”

A versão das autoridades é a de que ele estaria com câncer. No dia de sua morte, uma ex-namorada do escritor de nome Solange recebeu um telefonema de Brasília comunicando seu falecimento. O corpo de Hublet foi cremado.


Vídeo mostra as cenas em que José Dirceu é "recepcionado" pelo escritor curitibano Yves Hublet: alguém lavou a alma.

O episódio das bengaladas, que ganhou destaque internacional, ocorreu no momento em que o ex-deputado federal e ex-ministro José Dirceu deixava o plenário da Câmara dos Deputados, dias antes de ser cassado. Na ocasião, os seguranças da Casa detiveram Hublet e o levaram para prestar depoimento na Polícia Legislativa.

Ao agredir Dirceu, Hublet, um escritor de livros infantis que chegou a trabalhar também como ator em novelas da Rede Globo, gritou: “Fristão! Fristão!” Era uma referência ao livro Dom Quixote, de Miguel Cervantes, em que um personagem de tal nome é acusado pelo cavaleiro da triste figura de roubar sua casa, seus livros e transformar em gigantes os moinhos que ele enfrentava.

Hublet morreu como um Dom Quixote em sua batalha para resgatar a honra dos antigos cavaleiros a golpes de espada com o imaginário. Fristão, o sacripanta, venceu.

domingo, 29 de agosto de 2010

QUEM DIRIA, A BRÍGIDA DE ‘PASSIONE’ FOI GENI NO TEATRO


Cleyde Yáconis em cena da peça "O Caminho para Meca": a primeira "Geni" de "Toda Nudez Será Castigada."

Ícone do teatro, Cleyde Yáconis, 84, irmã de Cacilda Becker, foi a primeira a interpretar a personagem rodrigueana de “Toda Nudez Será Castigada”

Alguém ainda há de perguntar a Chico Buarque se ele extraiu o nome Geni (de “Geni e o Zeppelin”) da peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues. O enredo da letra é talhado e esculpido de “Bola de Sebo” de Guy de Maupassant. Disso não há dúvida.

Mas se há algo para surpreender e deixar os telespectadores estupefatos (se é que ainda se fica estupefato por alguma coisa) é descobrir que Cleyde Yáconis (Brígida), a velhinha que faz a sogra de Fernanda Montenegro (Bete) na novela “Passione” – e é só três anos mais velha do que ela – foi a primeira Geni de “Toda Nudez...”

Portanto, esqueçam Darlene Glória, ao menos por quatro ou cinco parágrafos.

Vinte e dois anos haviam se passado desde que Nelson levara ao palco o seu “Vestido de Noiva”, a peça que praticamente quebrou a espinha dorsal da dramaturgia brasileira. E lá estava ele, agora em sua fase madura, em 1965, trazendo à ribalta “Toda Nudez..., novamente nas mãos do ator e diretor Ziembinski.

Cleyde tinha 39 anos na época. Sua irmã, Cacilda Becker ainda brilhava nos palcos – morreria quatro anos depois de um infarto fulminante – e Cleyde seguia-lhe os passos com o mesmo talento invejável.

Quando foi convidada para encenar Nelson Rodrigues em “Toda Nudez...” aceitou sem hesitar. Geni era mesmo um personagem e tanto.

Quem não viu a peça e viu o filme de Arnaldo Jabor, não viu tudo. Jabor omitiu o padre e o médico comunista que, a certa altura, diz a Herculano (o viúvo conservador que se apaixona pela prostituta Geni): “É o homem, sempre o homem, Herculano. Não há, nunca houve o canalha integral, o pulha absoluto. O sujeito mais degradado tem a salvação em si, lá dentro.”

Mas Nelson Rodrigues não espera para dar tintas de tragédia ao final da história. Não por acaso o subtítulo da peça é “Obsessão em três atos”. Ao chegar em casa, Herculano, liga o gravador que está sobre a mesa do escritório e ouve a voz de Geni: “Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri”. Era Cleyde Yáconis quem reverberava pelos alto-falantes. A história vai sendo contada, ora por flash-backs, ora narrada por Geni. E tem todos os condimentos do universo de pessimismo inflexível do dramaturgo.

No filme, Paulo César Pereio interpreta Patrício, uma espécie de Iago e também alter-ego rodrigueano. Na peça, este papel cabe a Nelson Xavier, outro ator que costuma circular nas novelas da Globo com certa assiduidade.

Patrício é quem se encarrega de apresentar Herculano a Geni e também de colaborar decisivamente para a desgraça que vai recair sobre o irmão e a prostituta.
É através dele que Nelson Rodrigues destila seus melhores aforismos: “Eu sou o cínico da família. E os cínicos enxergam o óbvio. A salvação de Herculano é mulher, sexo! Para mim, não há óbvio mais ululante!”

Quando Geni pergunta se a mulher de Herculano era bonita, ele arremata: “Um bucho! Mas eu noto que os buchos até que dão sorte.”

Por óbvio que não faltaria mulher para Herculano, afinal ele é cheio da gaita, mas, explica Patrício, é também um semivirgem e o “único luto do Brasil”.

Ele precisa de uma mulher e de “de cada mil mulheres, só uma não é chata sexual. Novecentas e noventa e nove são chatérrimas.” Não há dúvida de que Nelson fala através de Patrício.

Quando, enfim, Patrício lhe pede a fotografia em que ela aparece nua, Geni reclama. Ele, então, retruca: “Geni, meu irmão é um casto. E o casto é um obsceno. Essa fotografia vai ser um tiro!” E é.

Afora a fixação de Geni por morrer de câncer no seio, tal como a falecida, a trama transcorre tal como planejada por Patrício.


Cena do filme "Toda Nudez Será Castigada" de Arnaldo Jabor (1973): "Eu sou tarada por salaminho".

Herculano enamora-se, quer casar e se dispõe até a contornar os problemas com o enlutado filho Serginho e com a trinca de tias – uma espécie de coro grego da peça. Mas é aí que Patrício entra na história de novo, levando o filho a presenciar Herculano e Geni nus no jardim. O choque faz com que ele vá para um bar, beba, arrume uma briga e acabe na cadeia, onde é sodomizado por certo “ladrão boliviano”.
No filme de Jabor, o ato de violência é secundado pelos presos da cela que cantam jocosamente “Bandeira Branca”. Na peça, a cena é apenas relatada.

Geni, então, é rejeitada por Herculano. Novamente entra em cena, Patrício. É ele quem delineia um plano de vingança: Serginho deve autorizar o casamento de Herculano com a prostituta e depois tornar-se amante dela. Um dia, na ceia, com o pai numa cabeceira da mesa e ele na outra, Serginho se levantaria e diria: “Cabrão”. Estaria vingado.

Mas não é bem isso o que acontece. Os seios de Geni continuam intactos apesar da feridinha do câncer que prenuncia – imagine Cleyde Yáconis, exibindo-os ou sustentando-os voluptuosamente em cena –, ela apaixona-se pelo filho de Herculano e ele, depois de lambuzar-se, abandona o plano de chamar o pai de “cornudo” e anuncia uma viagem.

O desfecho é inusitado. O que Nelson Rodrigues anuncia através da narração de Patrício, Arnaldo Jabor mostra na cena final do filme: Serginho embarcando no avião ao lado do “ladrão boliviano”.

O crítico Sábato Magaldi, que reuniu o teatro completo de Nelson Rodrigues, diz que Serginho, de certa forma, repetiu o itinerário do pai. “Mais casto do que ele, afogou-se no sexo, para se encontrar no homossexualismo. Caminhou da pureza absoluta (‘Meu sobrinho era impotente como um santo’, diz uma tia) para a perversão do prazer masoquista”.


Darlene Glória incorporou a Geni no cinema: carreira destoante com fim melancólico.

Se Cleyde Yáconis moldou a personagem Geni no teatro, Darlene Glória encarregou-se de colori-la no cinema. Pena que o que era arte em Darlene misturou-se à sua vida da forma mais cruel, a ponto de ela enveredar pelo misticismo e pela religião. Se vamos vê-la ainda em um filme pornô? Espero que não.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

DAN BROWN É CHATO CRI-CRI E PERNILONGO


O escritor norte-americano Dan Brown durante palestra: foram precisos quatro livros para que ele conquistasse o sucesso mundial.

Dan Brown, o escritor do megassucesso “O Código da Vinci” (Sextante, 423 págs., R$ 29,90) não pode ser acusado de não primar pela teimosia para alcançar o estrelato no mundo literário. Depois de “Anjos e Demônios”, o primeiro livro protagonizado pelo simbologista de Harvard, Robert Langdon, e o quarto escrito pelo norte-americano, Brown ainda insistiu na mesma fórmula e, enfim, conseguiu tornar-se um best-seller mundial, com 80 milhões de livros vendidos. Se isso é pouco, ele ainda regalou-se ao ver suas obras adaptadas para o cinema e estreladas por Tom Hanks.

O que causa estranheza, no entanto, é saber por que, afinal, “Anjos e Demônios” não frequentou o topo das listas de livros mais vendidos, quando “O Código da Vinci” não passa de uma repetição do argumento anterior? A saber: Um priorado da Igreja Católica – no caso, a Opus Dei – tenta manter em segredo o fato de Jesus Cristo ter deixado descendentes, o que levaria à destruição do cristianismo como é conhecido nos dias de hoje. Os sinais da existência do “sagrado feminino”, termo repetido “n” vezes no livro, serve de eixo para toda a narrativa que se segue, incluindo quadros de Leonardo Da Vinci (1452-1519) como a Mona Lisa e A Última Ceia.



Brown representado, em charge, tal qual a Mona Lisa: clichê do clichê.

Em “Anjos e Demônios” a trama é quase idêntica: uma sociedade secreta tem por objetivo destruir a Igreja Católica. E cabe a Robert Langdon impedir que o os cardeais sejam assassinados, o que impediria a eleição no novo Papa, usando de pistas deixadas por Galileu Galilei. Para isso, ele conta com uma assistente, cujo tio foi morto pelos Illuminati (a tal sociedade). Qualquer semelhança, não é mera coincidência.

Brown é casado com Blythe Brown, historidadora de arte, que o abasteceu de informações sobre o tema, inclusive as lendas relacionadas à igreja e as organizações que gravitavam em torno dela.

Em “O Código da Vinci”, Brown utiliza desses clichês em abundância. Há o albino, um fiel fervoroso do priorado, que executa as ordens de seu Mestre sem contestá-las. Há a criptógrafa, cuja morte do tio a une ao famoso professor de simbologia de Harvard, e há o vilão sub-reptício, cuja identidade, embora óbvia, só será revelada no final do livro.

Enquanto isso, Langdon e a francesa Sophie Neveu (este é o nome da criptógrafa) fugirão, em desabalada carreira do Museu do Louvre, em busca da solução do caso, que pode livrar o professor da acusação de assassinato do tio da especialista.


Tom Hanks (Robert Langdon) a francesa Audrey Tautou (Sophie Neveu) em desabalada carreira: a ação se passa em um dia, uma noite e um catatau de 400 páginas.

Se há algo de mais inverossímil no livro, além de todas as teorias que ele apresenta, é a de que o desenrolar da trama se passa em um dia e uma noite. Brown não se preocupou em fazer seus personagens dormirem e acordarem, mesmo numa brochura de mais de 400 páginas.

Chega a ser cômico, por exemplo, o relato de Langdon e Sophie descendo as escadas do museu francês, enquanto discutem as qualidades do carro em que estão prestes a embarcar e a velocidade que pode atingir em plena fuga.

No mais, os segredos que revelam ao longo da narrativa nem são tão surpreendentes assim. Brown chega a implicar até com o fato de que, no desenho animado Rei Leão, produzido pela Disney, a poeira levantada por Simba escreveria a palavra “sex”. Nenhuma novidade. Na época do lançamento da animação, em 1994, houve um protesto de católicos pelo mesmo motivo. Brown só fez guardar o recorte de jornal e usá-lo na hora certa.

O detalhe é que Brown ampliou seu significado. “Sex” significaria o sagrado feminino e também o fato de que Walt Disney, que permanece em estado de criogenia, seria um dos membros da Ordem dos Templários. Não bastasse isso, a mensagem deixada pelo personagem do desenho seria a forma encontrada pelo estúdio para, deliberadamente, transmitir a mensagem de seu fundador.

Que Brown tenha isentado a Igreja Católica da “conspiração” para evitar problemas maiores e jogado a culpa sobre o priorado Opus Dei, não parece ter sido uma boa ideia. A reação ganhou dimensões mundiais e, se não bastasse isso, o escritor americano ainda enfrentou um processo de plágio, do qual saiu ileso.

“O Código da Vinci”, assim como “O Símbolo Mortal”, lançado no ano passado, com uma tiragem inicial de 50 milhões de exemplares, segue o rastro do misticismo apocalíptico que tomou conta da literatura no início do século XXI e, cujo filão, vem sendo explorado com maior ou menor habilidade. No caso de Brown, ele fez de Robert Langdon o seu herói detetivesco, mas já tornou-se nítido que as tramas se tornam cada vez mais repetitivas. Há apostas no mercado editorial de quanto Brown vai resistir até confundir os roteiros e perceber que é mesmo o escritor de um livro só.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A QUE PONTO CHEGAMOS


O coordenador de campanha do PT, Antônio Palocci, e a presidenciável Dilma Rousseff: protagonistas de escândalos de lesa-Estado muito parecidos.

O PT foi o responsável por infringir o pilar de sustentação da República ao quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo de Souza e, assim, desmenti-lo quando o ministro Antônio Palocci (Fazenda) foi acusado de juntar, no mesmo caldeirão, lobistas e mulheres de vida airada em uma mansão, no Lago Sul de Brasília, conhecida com a alcunha vulgata de “República de Ribeirão”.
Isso ocorreu em 2006 e Palocci saiu de cena, fritado convenientemente por Lula, que naquele ano disputaria a reeleição, para voltar como coordenador de campanha de Dilma Rousseff quatro anos depois, com ar de ex-estuprador.

Da mesma forma, Dilma Rousseff que deitou e rolou com dossiês fajutos contra Fernando Henrique Cardoso e Dona Ruth Cardoso, na Casa Civil, por conta do escândalo dos cartões corporativos, saiu chamuscada, mas ilesa, do episódio, e agora, sem tocar no assunto, surfa na mesma prancha de Lula, impondo vantagem estarrecedora à frente do tucano José Serra.

A Folha de S. Paulo já havia revelado, em junho, a violação do sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, dentro da Receita Federal Eis outro pilar de sustentação do Estado Democrático, que os aloprados do PT fizeram questão de quebrar, sem o menor sinal de punição à vista. A isso, junte-se agora, a revelação de que, no mesmo dia, no mesmo lugar e da mesma forma, foram estuprados os dados fiscais de outras três pessoas próximas ao candidato à presidência da República, José Serra.

O mais alarmante é que a Receita Federal se nega a dar informações sobre o assunto, mesmo de posse de todas os dados. Ou seja, quem violou quando violou e a mando de quem violou, sem justificativa, as declarações do imposto de renda dos quatro tucanos.

Falar contra o companheiro Lula, já se viu e até Serra comprovou, é crime de lesa-pátria. Pois vai aí uma má notícia para os membros aloprados do governo: quebrar sigilo fiscal ou bancário é crime de lesa-Estado. Põe as instituições em risco e pode levar o país ao descrédito internacional.

A considerar que as violações foram urdidas por um “grupo de inteligência” da pré-campanha de Dilma Rousseff – com o aval da própria petista – e os fatos ganham contornos sombrios, que deveriam estar sendo discutido e investigados neste momento, à revelia da campanha eleitoral. Não cabe avaliar se Serra e os tucanos tem tanto fôlego. Mas que as cenas são a de um filme que poderia ganhar o título de “Aloprados 2 – a Trapalhada Continua” não há dúvida. Esperemos os próximos capítulos que devem ser conhecidos. Ao menos pela força da lei.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

POLÍITCA AQUI E NO AQUÉM DO ORIENTE


Campanha eleitoral na Coréia do Sul, em 2002: voluntários exibem faixas e bandanas pintadas à mão para divulgar as propostas do candidato.

Cada vez que ouço falar em gasto de campanha, escondo a minha carteira. Só a previsão de despesas de José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) nas eleições presidenciais atinge a marca dos R$ 337 milhões. Isso em Caixa 1, porque como disse Lula certa vez em Paris, Caixa 2 ou dinheiro não-contabilizado é uma tradição nacional que veio com as Caravelas.

Tal gastança é inconcebível, por exemplo, em países asiáticos como o Japão e a Coréia do Sul, cujas democracias sólidas não permitem abusos de seus políticos e qualquer ato de corrupção é punido com rigor. No mínimo com a perda do mandato, como já ocorreu diversas vezes com primeiros-ministros japoneses.

No caso do Japão, não há horários eleitorais gratuitos no rádio e na TV. As campanhas são realizadas através de comerciais pagos pelos partidos ou na internet. Os poucos comícios são modestos. Utilizam-se ônibus ou veículos utilitários adaptados com palanque em que se estendem faixas com ideogramas pintados à mão. Sem música, parafernália ou adereço, o candidato sobe ao palanque e faz seu discurso, muitas vezes sem auxílio de microfone. Os cabos eleitorais circulam em volta, exibindo bandanas com o nome do partido ou do concorrente. Mais nada. Vota quem quiser, porque o voto é facultativo. No mais, goza-se de plena democracia.

Na Coréia do Sul, em 2002, presenciei durante a Copa do Mundo, uma campanha política municipal nos mesmos moldes da do Japão. A diferença é que, encerrado o discurso do candidato, os cabos eleitorais enfileiravam-se na calçada e cantavam algo parecido com “Passarinho quer dançar, o rabinho balançar, porque acaba de nascer...” Na língua coreana, é claro.

O "espetáculo" era repetido em vários pontos da cidade(no caso, Ulsan) sempre acompanhado de um grupo de 10 ou 15 pessoas, todos voluntários, apresentando as propostas do candidato. Para os coreanos, a distribuição de lanches e o aluguel de ônibus para trazer eleitores da periferia é coisa inimaginável e passível de repulsa. No Brasi, ora veja, é prática frequente. Tão frequente que, apurados os votos e empossados os vencedores, o lanchinho é mantido com um nome de programa social - Bolsa Esmola, por exemplo - para garantir que os que votam aqui votam acolá, em um círculo vicioso muito conveniente.

Quanto à propaganda eleitoral "gratuita" no Brasil, basta dizer que o governo federal irá garantir R$ 800 milhões em isenção fiscal às emissoras de rádio e TV para compensar a queda de arrecadação publicitária durante o período. Sim, a cara de pau também veio com as Caravelas.

EIS A QUESTÃO

O problema
de Leminski
não foi rima
nem solução

O problema
de Leminski
não foi sair de cima
contraditório
beato pagão

O problema
de Leminski
não foi lema

O problema
de Leminski
não foi tema

O problema
de Leminski
foi só ano a ano
ser um leminskiano

EU SEI O QUE PAULO LEMINSKI FEZ COM VOCÊS NO INVERNO PASSADO


O poeta curitibano Paulo Leminski, morto em 1989, completaria hoje 66 anos.

Vivo, ao menos em corpo, Paulo Leminski completaria hoje 66 anos. Na falta de um dígito – desprezível por si só – seria a Besta das Araucárias como gostava de se autointitular. Era mesmo o seu retrato. Surpreendentemente, depois de devorar quase que literalmente "O Bandido Que Sabia Latim", biografia de Leminski escrita por Toninho Vaz (Record, 378 págs., R$ 44,90) é que constato que a obra do poeta sumiu das prateleiras. Ontem (23), passei parte da manhã ligando para livreiros e livrarias à cata da obra de Leminski. Nada. No site Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br), que reúne sebos de todo o país, pude comprovar que os livros de Leminski ganharam cotação de obras de arte. O "Catatau" varia de R$ 150 a R$ 250. "Caprichos & Relaxos" (1983), uma coletânea de poemas, que tornou-se um best-seller no conceito humilde do best-seller brasileiro, não sai por menos de R$ 80,00. Ou seja, há uma demanda evidente pelas obras de Leminski, que só um ensaio sobre a cegueira das editoras pode explicar por que não há novas reimpressões.

Afora um livro infantil, que escreveu para sua filha Estrela, a única obra disponível do poeta curitibano nas livrarias é uma coletânea intitulada "Os Melhores Poemas de Paulo Leminski" (Global, 213 págs., R$ 36), lançada em 1999 por Fred Góes e Álvaro Marins, quando registravam-se dez anos da morte da autor.

Este escriba possuía a primeira edição de Caprichos & Relaxos, lançado pela Brasiliense. Infelizmente, uma namorada ou então um gatuno, curioso pelas minhas digressões sobre o livro, resolveu "emprestá-lo" sem comunicar o proprietário. Foi-se. Escafedeu-se. Sem mágoas. O que me restou de Leminski foi uma edição em papel jornal dos "Anseios Crípticos", uma coletânea de artigos do poeta escritas em vários jornais e editada pela Fundação Cultural de Curitiba. Li uma vez, não gostei. Leminski chegou a manter uma coluna semanal na Folha de S. Paulo, logo depois do sucesso de "Caprichos & Relaxos" e a inclusão de "Verdura" (música e letra do poeta) no disco "Outras Palavras" de Caetano Veloso. Era chato, cri-cri e pernilongo. A julgar pelo que relata Toninho Vaz, Leminski fazia de suas colunas o que fazia também ao verbalizar: pontificava. E por isso era, miseravelmente, indigesto.

Lembro, a título de piada, de uma entrevista ligeira que Leminski concedeu a Maurício Kubrusly na Rede Globo. Ai de ti, Kubrusly, errou feio na informação ao afirmar que "Verdura" seria produto de uma parceria do poeta com Caetano Veloso. O esculacho foi para os anais. Leminski não perdoava, aplicava um ippon.


Poema-ícone do poeta: linguagem inovadora e frenética.

Paulo Leminski Filho – esse era o nome completo do poeta – faleceu em 7 de junho de 1989, aos 44 anos, vítima de cirrose hepática. Ironicamente, suas críticas ao hoje octagenário Dalton Trevisan, disparadas em manifesto e declarações (ou pontificados, como queiram) viraram contra o feiticeiro. Trevisan quando indagado sobre os motivos pelo qual não concede entrevistas diz que tudo que poderia dizer está em seus contos. De Leminski, pode-se dizer o mesmo. Há pouco interesse no que declarou ou defendeu nos jornais ou nas poucas entrevistas à TV, o que não se aplica à sua poesia. Esta sim, instigante e inovadora. O que lhe falta são seguidores. De perto, em termos de poemas, parece que o Brasil retornou ao classicismo ou ao barroco requenguela. Mas não sou eu a pessoa indicada para ensaiar uma crítica da poesia brasileira.

Por alguma razão mórbida, guardei o recorte da Folha de S. Paulo, com a reportagem da morte de Leminski escrita pelo também poeta Régis Bonvicino. Eu estudava em São Paulo àquela altura e tomei um susto quando me passaram a última página da "Ilustrada" na faculdade de Jornalismo.


Capa do livro "Paulo Leminski, o bandido que sabia latim" de Toninho Vaz, lançado em 2001: o poeta a nu.

O livro de Toninho Vaz é revelador ao descrever as tragédias que cercaram a vida de Leminski – a morte do filho Miguel Ângelo, aos 10 anos, e do irmão mais novo, Pedro Leminski, que enforcou-se amarrando uma corda de nylon em um armário no quarto de pensão em que morava. Eles não se falavam há seis anos.

Da mesma forma, os hábitos higiênicos reprováveis, nutridos desde o tempo em que ele frequentou o Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde pretendia tornar-se um monge. Leminski não gostava de tomar banho e raramente escovava os dentes. Por essa razão, já adulto, cultivou bigodes ao estilo Emiliano Zapata para esconder os dentes em petição de miséria.

Entre a produção do livro "Catatau" que lhe custou oito anos – e que originalmente se chamaria "Zagadka", que significa enigma em russo-polonês – e a concepção de poemas em escalas industrial, Leminski teve três filhos, casou-se três vezes, namorou aos cântaros e bebeu hectolitros de vodka, conhaque, cachaça, cerveja e o que mais contivesse álcool. O uso de drogas também foi frequente e, apesar de afirmar que era um pinheiro que não podia ser transplantado, sua vida foi a de um nômade, dentro ou fora de Curitiba.

Ainda assim, apesar do inverno de desesperança que o assombrava, era considerado um sujeito zen, que sempre estava de bom humor. Vaz cita o gaúcho Retamozo, um dos colegas de Leminski na agência de propaganda P.A.Z.: "Ele tinha uma característica rara no curitibano. Aqui é o muro da lamentação do universo, todos reclamam de tudo."

Prova do humor de Leminski é uma carta enviada ao irmão, Pedro, quando este passava uma temporada em Buenos Aires, em busca da reconciliação com a mulher: "Vou colocar uma placa na frente de casa oferecendo meus serviços: PROFESSOR DE LÍNGUAS MORTAS, CIÊNCIAS OCULTAS E ASSUNTOS ENCERRADOS."

Em outra ocasião, Leminski e um grupo de jovens intelectuais encontraram-se com o crítico e escritor Otto Maria Carpeaux, no Rio de Janeiro. Acostumado a falar alto e em ritmo frenético, o poeta descobriria que Carpeaux era gago, o que o deixou obviamente exasperado. Isso abreviou o encontro e provocou piadas entre os amigos que duraram dias.

Quando a bebida tornou-se um problema, Paulo Leminski chegou a frequentar os Alcoólicos Anônimos, convencido pela mulher e poetisa, Alice Ruiz, com quem teve seus três filhos. As reuniões foram abandonadas em pouco tempo. Ainda assim, entre 1978 e 1980, fase de produção vertiginosa, Leminski deixou a garrafa de lado. Quando brindou a volta à boemia com um chopp num bar de Curitiba, não parou mais. A quem perguntava porque bebia tanto, ele dizia que o álcool era uma espécie de leitmotiv. Claro que um intelectual não poderia dar uma explicação singela para sua condição de alcóolatra.

Um exame médico feito pouco antes da crise que o levaria à morte, mostrou que Leminski acusava cirrose hepática e parte do seu fígado já estava necrosado. Separado de Alice Ruiz e já vivendo com a cineasta Berenice Mendes, uma bissexual de quem se enamorara, Leminski reclamou, certa noite, de um mal-estar e quando Berenice foi buscar um copo d´água ele sentou-se na cama e jorrou sangue pela boca. Era o começo do fim.


Um exemplo do poema conciso de Paulo Leminski, que se tornaria sua marca e ganharia as novas gerações.

domingo, 22 de agosto de 2010

UM CONTO DE NATAL OU ALEGRO MA NON TREPPO


Eu odeio o Natal, odeio canções natalinas, odeio tudo o que cerca a festa, inclusive a comilança, e, juro, costumo embalar nos braços de Morfeu antes das doze badaladas notúrnicas.

Por razões que eu desconheço, ganhei fama (e nada de fortuna), escrevendo um texto sobre o Natal. Dia desses, o promotor do Ministério Público do Paraná, Fuad Faraj (@fuadfaraj), ora amargando exílio no Anibalistão, me confidencidou no twitter: "Eu também odeio o Natal". Era uma referência solidária (e tardia) ao tempo em que eu era colunista diário de um jornal e me vi esculachando a data. Creio, nos idos de 2007. No texto, havia um pouco de verdade, mas também muito de ficção.
Não sei por que cargas d´água, a coluna também mexeu com os calos de outra jornalista num bate-boca via internet. Desta não declino o nome porque não merece a papinha que come. De qualquer forma, se isto deixou curiosos todos os meus cinco leitores, reproduzo a coluna, mas com a ressalva de que é memória seletiva, sem compromisso com a realidade e muito menos com a aura alegro ma non treppo do 24 de dezembro. De fato, eu odeio o Natal, odeio canções natalinas, odeio tudo o que cerca a festa, inclusive a comilança, e, juro, costumo embalar nos braços de Morfeu antes das doze badaladas notúrnicas.



EU ODEIO O NATAL

Só criança até o limite dos sete anos gostei do Natal. E ainda assim por causa daquelas crenças bestas, rito de iniciação de qualquer um – raras exceções. Por sorte, meu pai estava sempre bêbado o suficiente para manter os familiares à distância. Nada que não ocorra em nove entre dez lares brasileiros. Se me lembro dos brinquedos ganhei uma aldeia indígena enquanto meu irmão ganhou um forte apache. Quem quer ser índio fadado a poucas vitórias e grandes massacres? E se não basta, imagine que quem está do outro lado, no comando da cavalaria, é um irmão quatro anos mais velho com tendências piromaníacas. Meus índios contrariaram a história e morreram queimados na fogueira da Inquisição. Torquemada ali era fichinha.
Aos nove anos ganhei a primeira cueca de minha avó materna – sim, porque até ali este era um adereço dispensável. E nunca mais deixei de ganhar cuecas. Vinha o Natal e eu sabia que aquela pequena caixinha, debaixo daquela árvore tosca enfeitada com algodão de farmácia, guardava a cueca anual reservada para o neto remelento. Eu queria um Estrelão – um campo de futebol de botão – vinha uma cueca. Eu queria uma bicicleta Monark, das mais baratinhas, vinha uma cueca. Nas poucas variações havia também um par de meias, mas a cueca era infalível.
Quando fiquei convencido que meu destino estava selado, passei a dispensar o ritual de abertura de presentes e pular para a próxima etapa que consistia na miserabilidade da ceia natalina. Ou resumindo: arroz com passas, maionese e um naco de alguma coisa esquisita boiando na gordura. Para acompanhar um copo de Coca-Cola Família (unzinho só) e a sobremesa dos deuses, manjar de maisena.
Eram nove horas da noite, pouco mais, e nós já havíamos completado o ciclo. Meu pai dormia alquebrado na poltrona de pano puído com a companheira ao lado – a garrafa – e a fumaça do cigarro, que jazia mal apagado no cinzeiro, fazia desenhos sinuosos por entre suas pernas.
Era o instante então que os católicos da casa viravam católicos e se dirigiam à hipocrisia anual na igreja do bairro, a tempo de voltar e assistir na TV, em dose dupla de devoção, à Missa do Galo rezada por Sua Santidade o Papa Paulo VI.
Com sorte, a essa hora, se o meu pai não acordasse com suficiente estardalhaço para a última dose da noite ou a primeira do dia seguinte, eu já estaria dormindo vestindo a velha cueca do ano passado e devidamente preparado, em corpo e espírito, para a cueca do novo ano.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

EI PRESIDENTE DO TSE, HUMOR DE CANDIDATO NÃO RIDICULARIZA O ELEITOR?


Ei Justiça Eleitoral, pegue leve com os humoristas. Pense bem: pior, são os humoristas que se apresentam como candidatos. Quem degrada quem?

O presidente do TSE, Ricardo Lewandowski, só pode estar de brincadeira. Pândego como nunca antes na história, ele levou adiante a resolução que proíbe programas de humor de TV e rádio de ridicularizar ou degradar candidato, partido ou coligação, em nome da isonomia política que exigiria a esculhambação na mesma medida de todos os concorrentes.

A saída seria criar um horário eleitoral gratuito em que cada candidato teria sua réplica humorística. Mas nem foi preciso. Os próprios concorrentes encarrregaram-se de suprir essa lacuna que preza pela ausência de propostas.

E não é preciso ir muito longe para comprovar essa afirmação. Basta assistir a propaganda eleitoral gratuita – que não é gratuita coisa nenhuma, e começa aí a piada – que desde 17 de agosto invade as casas de 135,8 milhões de eleitores. Há casos como o do comediante Tiririca, candidato a deputado federal em São Paulo, que afirma ao telespectador ou ouvinte: “Titica por titica, vote no Tiririca”. “Você sabe para que serve um deputado? Nem eu.” “Vote Tiririca. Pior não fica”.

E para ficarmos em exemplos locais, há um candidato em Curitiba que diz: “Meu nome é Bill. Você nunca me viu”. Quaquaquá. Ou ainda um concorrente que, com ar de seriedade, brada aos eleitores: “Se você está cansado dos atuais atores políticos, Tomate neles!” Tomate é o codinome do tal que constará na urna eletrônica.

Outros partidos parecem ter adotado a Lei Falcão por conta própria e mostram apenas as caras de seus correligionários. Cheiroso, Lingüiça do Circo, Leão Brasil, Papai Noel e outras aberrações que seriam cômicas, não fossem trágicas, aparecem em imagens congeladas ou em declarações curtas e ininteligíveis.

Há que se perguntar ao presidente do TSE, se a degradação que ora se impõe aos humoristas não deveria ser tema de reflexão quando se trata de candidatura com tal teor de comicidade? Comicidade esta que, degrada e ridiculariza, em efeito reverso, o próprio eleitor.

Vale lembrar episódio recente em que membros da Câmara dos Deputados sentiram-se ofendidos com alusões feitas aos parlamentares no programa “Casseta & Planeta” (Rede Globo), levando o Legislativo Federal a estudar a abertura de um processo contra os humoristas.

Os nobres políticos reclamaram especialmente dos quadros em que foram chamados de “deputados de programa”, onde uma prostituta se diz ofendida ao ser comparada a um parlamentar, e de outro em que aparecem sendo vacinados contra a “febre afurtosa”.

Ao ver a fita do programa, afirma um deputado, duas colegas teriam chorado, tal a humilhação sofrida. Pois fiquem certos, deputados, que o aviltamento é recíproco.

A “Nota de Esclarecimento” da equipe do Casseta&Planeta tornou-se um libelo da liberdade de expressão, ora desprezada pela resolução do TSE. Em tom de blague, os humoristas afirmam que em “nenhum momento tiveram a intenção de ofender as prostitutas. O objetivo da piada era somente comparar duas categorias profissionais que aceitam dinheiro para mudar de posição”.

Os humoristas informam também que, não há nenhum impedimento para que abram espaço no programa, a fim de que os deputados possam usufruir do legítimo “direito de resposta”. Só veem um problema, este de ordem técnica: “Nossas gravações ocorrem às segundas-feiras, o que obrigará os deputados a 'interromper seu descanso'”

Diante de um cenário como este, em que a pilhéria está posta em duas vias, indaga-se ao presidente do TSE, se a degradação e a ridicularização que assomam o eleitorado na privacidade de seu lar não os torna impotentes diante daquilo que deveria ser a festa da democracia.

Claro, a liberação do humor no rádio e na TV não significa uma censura aos políticos que, porventura, queiram se mostrar engraçados diante do eleitores. Tudo o que os humoristas não querem é uma lei de “reserva de mercado” – se é que Lewandowski entende. O presidente do TSE, pois, fique à vontade.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

TUDO QUE VOCÊ QUERIA SABER SOBRE DILMA, MAS NÃO ESTAVA NEM AÍ


Revolucionária desde os 16 anos, Dilma usou vários codinomes, inclusive Marilena Chauí e Araci de Almeida. Ninguém suspeitou.

Dilma Vana Rousseff, depois Vanda, depois Dorothéa, depois Juliana, depois Clarabela, depois Shakira, nasceu em Uberaba, Minas Gerais, em 14 de dezembro de 1947, filha de um búlgaro, o poeta Pétar Russév, que adotaria o nome de Petardo Roussef, e da professora brasileira Dilma Me Jane You Tarzan Silva.

Precoce, aos 16 anos ela aprenderia as primeiras letras e tomaria conhecimento de seu destino revolucionário com a leitura de gibis do Fantasma, em que se imaginava como Lothar, recém-saído do armário, e as fotonovelas da “Sétimo Céu”.

Matriculada no Colégio Sion, um dos mais tradicionais de Belo Horizonte, Dilma trataria de tomar a frente de um movimento que derrubaria a crença machista de que mineira tem mais horas de cama do que urubu de voo. Se bem que há controvérsias.

Já em seu último ano na escola, passaria a se reunir com elementos de conduta suspeita, que se auto-intitulavam Huguinho, Zezinho e Luizinho. Cedo casaria-se com um deles. Só não me pergunte com quem.

Os quatro formariam um dos primeiros grupos revolucionários de Minas: o Pocotó (Política Comunista e Tó Pra Vocês), inspirado nos ensinamentos de Lênin, Marx, Trotski e Sade. Donde a explicação para o marxismo de linha masoquista que tomaria conta do grupo e daqueles que ingressariam na organização nos meses seguintes.

Encarregada de cooptar estudantes, Dilma depois Chica, depois Amélia, depois Luciana, depois Maria, depois Hebe Camargo, usaria de seu conhecido charme para atrair os incautos. Como o plano (nem o charme) revelariam-se eficazes, Dilma trataria de esperar os estudantes atrás de uma moita, acertando-lhes a cabeça com o mesmo porrete com que o pai búlgaro obrigava seus conterrâneos a ouvir suas poesias, levando-os então para o “aparelho”.

Em seis meses, Dilma já havia incorporado à organização dois estudantes de sociologia, um de física quântica e um vendedor da Enciclopédia Barsa.

Com a luta armada ganhando corpo e o regime militar prestes a endurecer, o grupo de Dilma se fundiu a uma organização guerrilheira, especializada em assaltar disk-pizzas. Em sua primeira missão, planejada por Dilma e seu marido (Huguinho, Zezinho ou Luizinho), eles renderiam o pizzaiolo, o gerente e o motoboy e desapropriariam uma quantidade absurda de mussarela, orégano e molho de tomate.

O sucesso da empreitada fez com que o grupo ganhasse o nome de Aliche (Armas e Liberdade Para Che), uma homenagem singela ao guerrilheiro assassinado na Bolívia.

Dilma não compactuava com a democracia. Via falhas imperdoáveis, por exemplo, no modo como a imprensa se manifestava, no voto popular e na liberdade do indivíduo de ir e vir. Que horror! Seu modelo ideal de governo era o cubano, em que um grupo tomava de assalto o poder e cantava “La Palomita” por longos 40 anos.

Em 1968, já com o AI-5 em vigor, Dilma, depois Lara, depois Joana, depois Ritinha, depois Elizabeth, depois Diná, depois Araci de Almeida, viaja para São Paulo com seu novo marido (Huguinho, Zezinho ou Luizinho) e passa a viver na clandestinidade em local ermo e não sabido.

Com a decisão do Aliche de ingressar na luta armada, Dilma passa a ter aulas de tiro, tornando-se uma exímia pistoleira – se é que você me entende.

Em missão planejada por Dilma, o Aliche mata um coronel alemão, alto, loiro, de olhos azuis, 1,80m pensando tratar-se de um militar boliviano, baixo, índio, quase preto, 1,50m.

Depois de repetir os erros, assassinando um manequim de loja e um escoteiro que ajudava uma velhinha a atravessar a rua, o Aliche decide concentrar suas operações em assaltos a banco.


O grupo de Dilma desiste de matar agentes do regime, depois de assassinar um manequim de loja e eliminar um escoteiro que ajudava uma velhinha a atravessar a rua.

Em 1969, Dilma, depois Beatriz, depois Paola, depois Anita, depois Marieta, depois Ana Lúcia, depois Julieta, depois Marilena Chauí ou Rose Marie Muraro – dependendo do ambiente acadêmico em que se infiltrava – conclui que há condições objetivas para a revolução brasileira e convoca Carlos Lamarca, então ocupado em fugir das forças repressivas no Vale do Ribeira, para uma reunião.

Dilma não parece estranhar quando o líder da VPR (Vanguarda Pop Revolucionária) surge à sua frente trajando uma bermuda de surfista e um boné com orelhas do Mickey. Depois de três dias de debate e uma partida de biriba, os dois grupos resolvem se fundir e formar a Zumbi Ziriguidum dos Palmares, cujo propósito principal é arrecadar fundos para financiar a derrocada do regime militar no país e propiciar a ascensão da ditadura do proletariado, mais dita e menos proleta.

O golpe de sorte se dá numa tarde primaveril, quando um dos maridos de Dilma (Huguinho, Zezinho ou Luizinho) obtém a informação de que o cofre de Adhemar Barros, que havia batido as botas, estava na casa da sua amante, o “Dr. Rui” (please, sem mais detalhes), no Rio.

Na operação, que, por modéstia ou inibição, Dilma não assumiria o planejamento, a Zumbi Ziriguidum, desapropria (hahaha) US$ 2,5 milhões de dólares, dinheiro suficiente para encher, segundo cálculos de Joelmir Betting, já um velho economista na época, dez contêineres de balas Juquinha.

Dilma e o Zumbi Ziriguidum, no entanto, preferem festejar comprando passaportes surpresa do Playcenter e ingressos para a temporada de pornochanchadas do cine Paissandu.

Com parte do dinheiro, Dilma compra um fusca 66 bege e nele pinta a logomarca da organização. O Politburro aprova. Num congresso realizado em um hotel cinco estrelas de Búzios, no Rio, os membros da Zumbi Ziriguidum assinam uma resolução conjunta, mas ainda assim resolvem se separar. Lamarca diz que é coisa de pele (de cobra), mas não se refere explicitamente a Dilma.

Em 16 de janeiro de 1970, já ensaiando carreira-solo, Dilma é presa num bar da Martins Fontes, quando tomava cerveja com dois amigos e jogava porrinha.

No Dops, para onde é levada, Dilma passa por uma sessão de afogamentos nas quatros modalidades – nado livre, borboleta, costas e cachorrinho, seguindo-se o popular pau-de-arara e depois a temível cadeira do dragão. É neste instrumento de tortura que ela sofre sua maior provação. Diante de uma cartilha “Caminho Suave”, ela é obrigada a ler cada letra do alfabeto e soletrar as sílabas. Toma choques eventuais, mas passa por maus bocados na letra Z de Zabumba, quando chega a desmaiar e é reanimada por seus algozes.

Transferida para o presídio de Tiradentes, ela passa a levar a vida na flauta. Primeiro, recebe comida especial de seus familiares. Depois livros e discos. Nas tardes de deprê deita no andar de cima do beliche, fumando e ouvindo tangos. E nem se importa quando o então marido (Huguinho, Zezinho ou Luizinho) a corneia com a atriz Beth Mendes.

Após 28 meses, Dilma é libertada. Mas resiste em sair (chega a acorrentar-se nas grades). Por dias a fio, acampa na frente do presídio ameaçando atirar seu fusca contra os portões ou atear fogo em seu próprio corpo caso os militares não a devolvam à sua cela. Em vão.

Depois de render-se ao inexorável, Dilma viaja para Porto Alegre, onde cursa a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em 1979, quando os anistiados começam a voltar do exterior, Dilma ou Vana ou Roussef já está instalada em um cargo fácil e bem remunerado e pronta para abrir os braços ao futuro. Alguém aí lembrou da “ditabranda”?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

“BONITINHA, MAS ORDINÁRIA” TRAZ O MÁXIMO DAS MÁXIMAS DE NELSON RODRIGUES


Cena do filme "Bonitinha, Mas Ordinária", de Braz Chediak (1981), com Lucélia Santos no papel de Maria Cecília: atriz "rodrigueana".

Soube que refilmaram “Otto Lara Resende ou Bonitinha, Mas Ordinária”, com Leandra Leal vivendo a prostituta Ritinha e um par de desconhecidos. Não vou comentar. A melhor adaptação da peça de Nelson Rodrigues para o cinema, a meu ver, é a de 1981, dirigida por Braz Chediak, com Lucélia Santos como Maria Cecília, José Wilker como Edgard e a exuberante Vera Fischer como Ritinha.

Nelson Rodrigues, que morreu durante as filmagens, reconheceu em Lucélia a perfeita personagem rodrigueana. E “Bonitinha...” é certamente a melhor incursão da atriz no universo de pessimismo inflexível do autor.

Nelson fez da peça também uma apologia ao amigo Otto Lara Resende, levando seus personagens a repetir por 25 vezes durante os três atos a máxima “O mineiro só é solidário no câncer”.

Óbvio que a frase não é gratuita. Surge já nas primeiras cenas, na conversa entre Edgard e Peixoto e auto-explica-se. “Não é apenas o mineiro. O homem, o ser humano, qualquer um, só é solidário no câncer”, explica o ex-contínuo Edgard ao chefe.

A frase também torna-se uma prova de caráter para o funcionário, ao receber a proposta de casar-se com a filha do patrão (a adolescente Maria Cecília) com todas as benesses que o acordo pode lhe trazer, inclusive a de receber um salário quadruplicado sem precisar trabalhar.

Maria Cecília esconde um segredo. Ao deixar o colégio interno, o carro em que estava sofreu uma pane em um terreno baldio e ela teria sido currada por cinco negros.

Repare que o uso do termo “negro” ou “crioulo” é abundante no teatro rodrigueano em contraposição às expressões politicamente corretas que viriam a ser adotadas no fim do século XX. Expressões estas que, salvo engano, tem o único propósito de atormentar autores, jornalistas e que tais. O mundo, certamente, ficou mais chato.

“Bonitinha, Mas Ordinária” apanha Nelson Rodrigues em um período especialmente produtivo de sua carreira de dramaturgo – a peça estreou em 28 de novembro de 1962, no Teatro Maison de France, no Rio –, ainda que, mesmo com o sucesso de público e crítica, ele siga com o estigma de “autor maldito” e esbarre em dificuldades nas produções.

Em “Bonitinha...” o espectador/leitor encontra muito do pensamento rodrigueano que se difundiria através dos anos e faria sua fama de aforista. Exemplo: quando Edgard retorna à casa do milionário Heitor Werneck, pai de Maria Cecília, para selar um acordo, este tenta suborná-lo. Edgard diz: “Eu não sou o Peixoto!” Werneck emenda: “Engano seu. No Brasil, todo mundo é Peixoto”.

Na sequência, o pai da menina lhe entrega um cheque de 5 milhões de cruzeiros e o desafia: “Se você tem caráter rasga o cheque. Ou você é Peixoto, não passa de um Peixoto!” Pois este será o dilema de Edgard no restante da peça.

A honestidade e a canalhice, temas recorrentes no teatro de Nelson Rodrigues, também se traduzirão através dos personagens. A certa altura, Werneck diz à sua esposa Lígia, uma devota que vê no milionário – um pulha militante – traços de bondade: “Você sempre com essa mania de ser honesta. Ninguém é honesto. Você é a última honestidade que eu conheci!”

Mas é da boca de Peixoto, sinônimo das “peixotadas”, que Nelson cunha uma de suas máximas impagáveis. Ao discutir sua condição de mau-caráter com Edgard, Peixoto diz: “Escuta. No Brasil, quem não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte”.
O eixo da peça continua sendo a frase de Otto: “O mineiro só é solidário no câncer”.

Para Edgard, o fato de aceitar ou não o que ela expressa será também sua escolha de vida ora em diante. Não por acaso, ele revela-se tão confuso diante de Ritinha – a vizinha por quem se apaixona e que depois lhe revelará que se prostitui para sustentar as três irmãs e a mãe doente.

“Ritinha, a frase do Otto é mais importante do que ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha”. “A frase do Otto é mais importante do que todo o Machado de Assis.” E por fim: “Ritinha, a frase do Otto é que é o câncer”.

É nessa pequena odisseia urbana que Nelson Rodrigues pinta o melhor de seu teatro. Um fato inusitado: a história tem um desfecho feliz e, enfim, Edgard pode deixar morrer a frase de Otto que o perseguiu durante a peça.

Claro, a máxima de Otto está morta para você, leitor e filho ingrato, porque segue repetida, citada, parodiada e modificada até nossos dias, sem perder um naco do que a caracteriza também em “Bonitinha, Mas Ordinária”: seu intrigante significado.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

TSE É O JORGE DE BURGOS DAS ELEIÇÕES


Tina Fey incorpora a vice republicana Sarah Palin no humorístico "Saturday Night Live": impagável.

Quem se recorda da campanha que elegeu o democrata Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, há de se recordar também do escracho que os programas humorísticos dedicaram a Sarah Palin, a governadora do estado do Alasca e vice na chapa do republicano John McCain.

Palin foi o prato principal do humorístico “Saturday Nigh Live”, que reconvocou Tina Fey, ex-roteirista do programa e sósia de Palin, para dar mais “realismo” às piadas.
Em um dos esquetes Palin (Tina Fey) é entrevistada por Amy Poehler e revela sua total ignorância sobre a finalidade da ONU após visitar sua sede:

“Foi fantástico. Tantas pessoas interessantes. Mas fiquei decepcionada, pois muitos deles são estrangeiros. Prometo que, quando eu e o senador McCain estivermos eleitos, nós vamos devolver estes empregos aos americanos!”


Foi mesmo um prato cheio para os comediantes. Qualquer comediante. A pouca experiência de Palin, que estava há menos de dois anos no governo, seu histórico como mãe de família, caçadora e ex-candidata a Miss Alasca eram material inesgotável para sátiras.

Pois o que é bom para os Estados Unidos, ao menos nesse caso, deveria ser bom para o Brasil. Isso se o ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pensasse assim. Que nada.

Invocando o que foi estabelecido na resolução 23.191 de setembro do ano passado, ou seja, há menos de nove meses, Lewandowski incorporou o Torquemada e resolveu banir todo e qualquer humor que “degrade ou ridicularize candidato, partido político ou coligação”.

Fulos da vida, os humoristas do Casseta & Planeta radicalizaram. Diante da censura (sim, a palavra é essa mesma) decidiram expurgar todos os candidatos e partidos dos quadros satíricos, limitando-se às siglas ficcionais como o Partido do Polvo Profeta.

E não é para menos. Na resolução do TSE, constam multas pesadíssimas que vão de 20 mil a 100 mil Ufirs (unidade fiscal do imposto de renda), duplicadas em caso de reincidência. Tem mais: Lewandowski fez questão de lembrar que as emissoras são concessões, sujeitas, portanto, ao bom humor dos governantes. Hugo Chávez fez escola.


Trecho do filme "O Nome da Rosa", baseado no livro de Umberto Eco: o monge não deve rir.

Lewandowski não é só Torquemada, o inquisidor espanhol. É também o Jorge de Burgos do romance “O Nome da Rosa” de Umberto Eco, que ao descobrir que o livro II de Aristóteles enaltecia o riso, tratou de derramar veneno na extremidade de suas folhas. Assim, os padres beneditinos que ousassem ler o livro e molhassem os dedo indicador na ponta da língua para virar as páginas, morreriam envenenados.

Burgos, assim como Lewandowski, não admitia o riso, e rejeitava qualquer ideia de que Jesus Cristo pudesse, um dia, ter gargalhado às escâncaras.

O ministro do TSE é da mesma opinião. Não admite que candidatos de qualquer esfera sejam maculados com a sátira e o riso, tal a seriedade do pleito que se avizinha. Seria cômico não fosse trágico.

Dilma Rousseff, a candidata do PT, somou até agora 7 multas que resultaram em R$ 33 mil. Serra (PSDB) foi multado 5 vezes, o que equivale a R$ 25 mil. Pois em nenhum desses casos, a Justiça Eleitoral considerou duplicar a multa em caso de reincidência. Mas o faz no caso de um eventual pecadilho dos humoristas de TV e rádio.

Em “O Nome da Rosa”, Burgos tem um final trágico. Descoberto por William de Baskerville – uma espécie de Sherlock Holmes da Idade Média – ele alimenta-se em parte das páginas do livro de Aristóteles e o restante é consumido pelas chamas que, no final, destroem a abadia.

Ainda deglutindo as páginas, Burgos justifica o seu ato: “O que aconteceria se devido a este livro, os eruditos declarassem ser permitido rir de tudo?” A preocupação de Burgos reside no fato de que a defesa do riso por Aristóteles seria considerada uma prerrogativa pelos cultos, o que fugiria ao controle da doutrina da fé e da Igreja Católica.


Dilma ameaça, mas não dança o "Rebolation". Ela ainda chega lá. Ou não?

Lewandowski concordaria. Para ele, a degradação dos candidatos deve ficar reservada ao período pré ou pós-eleitoral. Dilma Rousseff, por exemplo, já se comprometeu com o humorístico Pânico na TV a dançar o “Rebolation”, caso seja eleita presidente da República. É uma degradação que não se pode perder. Nem deixar de rir.

POLÍTICA DO BLOGO

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